Rui Sequeira: Da Serra de Sintra ao Tor des Géants

Autor: Fábio Lima

330 quilómetros e 24 mil metros de desnível em… sete dias? Os números assustam, tanto pela quilometragem, como pelo desnível, mas isso não chegou para demover Rui Sequeira, um engenheiro de 41 anos, que no mês de setembro se aventurou no mítico Tor des Géants.

Foi o culminar de sete anos em progressão, desde as provas de 10 quilómetros na Marginal do Tejo, passando por ‘meias’ e maratonas. E acabou por ser precisamente uma maratona a marcar o ponto de viragem nesta paixão – “achei um tédio”. Dali em diante, os 42k já eram um número demasiado baixo. “Fiz provas de 40, 80, 100 quilómetros; depois passei para as 100 milhas, fiz o UTMB em 2016, e depois pensei que tinha de subir”. E subiu.

Iniciou a preparação em janeiro, mas aí o treino não era físico, mas sim mental. “Essa parte teve de começar a ser preparada aí. A preparação começa quando desenvolves a esperança de fazer uma prova deste género. O físico vai ao limite, mas o que faz a diferença é a parte mental e a gestão de tudo”, explica.

E não bastasse a complexidade de enfrentar um desafio desta dimensão, Rui Sequeira teve de fazer toda a preparação em condições opostas às que encontrou no grande dia. Desde treinar na Serra de Sintra – “sempre que dizia que treinava numa zona com 400 metros de altitude a malta começava a rir-se”, passando pelo facto de os treinos serem antes de trabalhar – “entre as 6 e as 7 da manhã” -, tinha também a seu cargo deveres familiares que implicavam sair do treino a ‘voar’… Não foi fácil, mas o grande dia lá chegou.

Modo sobrevivência

“Foi um momento emocional, porque foram muitos meses e trabalho intenso a preparar a prova”, recorda, ao falar dos segundos que antecederam o tiro de partida, ao som da mítica música da prova. “É uma coisa que arrepia!”

E depois dos arrepios pré-prova, veio a dureza. A primeira fase correu bem, mas tudo se complicou. “Tinha os quads totalmente destruídos. Já não conseguia descer e aí tive de parar e fazer o reset aos objetivos”. Objetivos esses que passavam pelo top-30. Dali em diante, com mais 200 quilómetros pela frente, redefiniu estratégias e traçou como meta simplesmente… acabar. “Já não conseguia descer. Fiz 200 km em modo sobrevivência”. Ainda para mais, lembra, a partir de determinado momento o seu corpo deixou de aceitar aquilo que tinha levado para se alimentar (sais, géis, barras).

E foi com o modo sobrevivência ligado que chegou à meta mais desejada, sem antes ter vivido momentos inesquecíveis. Como por exemplo quando, no último abastecimento, um senhor de idade lhe preparou “com todo o carinho” um prato de massa, que normalmente já estaria feito e pronto a lançar para os pratos. “Foi a melhor massa que comi. Só o carinho que ele aplicou ali, ficou realmente marcado.” “Depois disse-me 'faz uma coisa: agora vais subir muito, por isso mete dois cubos de açúcar na água'. Aquilo ficou mesmo marcado, porque o homem foi de uma simpatia incrível”. Foi o boost necessário para enfrentar a última dificuldade antes da meta. Lá estava a sua família à espera, num incrível momento de emoção. “Estavam à minha espera com a bandeira. Foi brutal”.

A posição final (104.º, em 116 horas) não correspondeu às expectativas, mas tendo em conta as dificuldades que enfrentou, admite que ter conseguido chegar ao final já foi uma grande vitória. “Tive mixed feelings. Tinha expectativas elevadas e houve ali uma certa frustração por não atingir o que tinha em mente. Mas em face do que tive de enfrentar, chegar ao fim em 104.º para mim não foi um mau resultado. Foi abaixo do que tinha em mente, mas não posso dizer que foi um mau resultado.”

E depois disto… o que se segue? À data da nossa conversa, Rui Sequira ainda não tinha nada planeado, mas agora o objetivo já está definido. A Transgrancanaria, uma prova de 269 quilómetros que dá a volta completa à ilha espanhola. Decorre em finais de fevereiro e Rui Sequeira já trabalha para lá chegar.

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