Na praia, para ganhar força e resistência

Em diversas publicações, é usual discutir-se sobre se determinadas estratégias e tipos de treino trazem benefícios ao corredor ou se aumentam o risco de lesões. No mundo das corridas, não são poucas as divergências. A única certeza é de que elas estão sempre por aí, sempre provocando discussões e debates entre corredores, treinadores, fisioterapeutas e médicos. 
Chegado o verão e as férias, são muitos os que utilizam a praia como parte importante do treino, juntando o útil ao agradável. Na verdade, qual é o corredor que nesta época do ano, não gosta de começar o dia bem cedo na praia com uma corridinha? E a quem deseja participar em provas que fogem do asfalto, os treinos na areia tornam-se ainda mais importantes. Têm uma função relevante no fortalecimento muscular e na resistência. 
Mas, este trabalho de areia tem regras que devem ser seguidas, nomeadamente deve ser feito no período de base, como estratégia de força muscular e fortalecimento das estruturas articulares, como os tornozelos, joelhos e ancas. Normalmente inicia-se com uma caminhada na areia fofa para fazer uma adaptação ao terreno e vai-se evoluindo, com cautela. 
Prós e contras > Há quem considere que o excesso de carga pode aumentar o risco de lesões nos chamados exercícios pliométricos, como os realizados nos circuitos na areia. Se estes exercícios forem feitos corretamente e em dosagem adequada, não vão aumentar a ocorrência de lesões. O problema é se há um exagero na carga e na forma com que alguns seguem os treinos em circuito e na sua aplicação em pessoas não preparadas para os realizar, como os iniciantes e todos aqueles que têm excesso de peso. Os benefícios dos exercícios na areia são muitos, desde que executados na intensidade e volume adequados. Estas atividades têm um maior componente estático e favorecem o fortalecimento muscular, o ganho de massa magra e até podem inibir algumas lesões. Os desníveis do terreno estimulam os propriocetores articulares, estabilizando as articulações do tornozelo e dos joelhos. Assim, estas articulações ficam mais protegidas contra lesões dos tendões. Além disso, a maior dificuldade na realização dos exercícios também gera maior esforço cardiovascular. Estes mesmos circuitos na areia são uma ótima ferramenta em alguns programas de fisioterapia pós-lesões ou de relaxamento pós-prova. Entretanto, assim como qualquer modalidade de treino, devem ser adaptados para cada indivíduo e também acompanhados pelo treinador ou fisioterapeuta. Este acompanhamento é de importância fundamental para as devidas correções de postura, do gesto desportivo e do tipo de passada, entre outros. O volume e a periodicidade do treino na areia vão depender do calendário do atleta. O circuito desenhado pelo treinador ou fisioterapeuta tanto pode servir como parte de uma atividade de relaxamento, como pode ser muito duro numa fase de treino especial. Na fisioterapia, pode-se indicar algum tipo de atividade terapêutica na areia. Essas atividades podem ser específicas para determinada lesão ou também podem ser aplicadas em uma fase pós-lesão, quando serão usadas para readaptação ou retorno ao desporto. A maioria das lesões nos circuitos na areia, ocorre por falta de supervisão ou falha na dose exata de treino. 
Sem lesões > Os exercícios na areia reforçam a musculatura, por trabalharem músculos que outras atividades não conseguem. Assim, as probabilidades de lesão diminuem. Os circuitos na areia melhoram a técnica de corrida, uma área do treino que cada vez mais é seguida pelos corredores que têm orientação de técnicos eficientes. “Quando elaboramos uma sequência de exercícios, pensamos inicialmente na melhoria da técnica de corrida. A ideia é tornar o indivíduo capaz de correr com a maior eficiência e o menor gasto energético possível”, diz um dos técnicos de academia, no Brasil. Essa necessidade é muito incutida na mentalidade dos nadadores, por exemplo, mas os corredores, na sua maioria, não viam o treino técnico como uma necessidade ao seu desenvolvimento. O treino na areia ativa unidades motoras que normalmente não são usadas nos treinos em terreno regular, como o asfalto. A corrida é um desporto cíclico, em que não há variação do gesto desportivo. Quando um atleta executa um gesto ao qual não está acostumado, ele ativa outras vias nervosas e passa a ter um repertório motor maior. Isso dá mais qualidade à sua corrida. E quase sempre a melhoria na qualidade resulta em melhoria nos resultados. A finalidade destes exercícios na areia fofa deve sempre ser levada em conta. Se os treinos envolvendo circuitos, força explosiva e específicos são importantes para aumentar o desempenho, para quê submeter pessoas ainda pouco treinadas a essas atividades? Alguns optam por fazê-los para motivar e "quebrar a rotina”. Mas há um risco (desnecessário) de desencadear lesões. Em relação à periodicidade, é possível realizar os circuitos três vezes por semana, mas dependerá do que se faça nas estações dos circuitos. Por fim, ainda que os circuitos possam ser uma ótima opção, é preciso considerar que o trabalho de força tradicional pode proporcionar uma base para os primeiros, além de contribuir para dificultar os riscos de lesões.
 

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