Maratona de Viena: Piloto automático na senda de Kipchoge

17MAI 15h27

Ainda não era nascido quando Madjer fez magia em Viena, mas a minha ligação ao desporto obriga-me a ter bem presente aquele momento histórico. 35 anos depois, ali estava eu naquela cidade, para fazer a minha história: correr maratonas por esse mundo fora. Viena era a 5ª do ano, num cenário que também tem um peso bastante forte no mundo do atletismo. Foi ali, em 2019, que Eliud Kipchoge quebrou a barreira que todos achavam impossível: uma maratona sub-2 horas. Estar ali já era especial, mas poder correr alguns desses quilómetros… mais ainda! Por ser a quinta 5ª do ano, mesmo num percurso rápido, seria apenas para concluir e trazer a medalha. Era a desculpa perfeita para desfrutar desta aventura num passo apressado por Viena.

O arranque é feito do outro lado da cidade, uns metros antes de uma das pontes sobre o Danúbio. Naquele ponto Kipchoge iniciou o seu desafio e, confesso, ali senti também o primeiro arrepio. "Aqui começou a fazer-se história", pensei. No meio de milhares, era impossível não ficar com pele de galinha nas primeiras passadas. Viragem à esquerda e entrávamos no Prater. Um parque gigante, com quilómetros de área verde e uma longa reta para corrermos. Quando lá entrei senti que tinha de aproveitar o momento. Estava a pisar terreno sagrado para quem faz do atletismo o seu desporto predileto. Desfrutei. Aproveitei.

O primeiro ‘banho’

Depois dos quilómetros no Prater, seguimos rumo ao centro da cidade e aproximamo-nos de alguns pontos turísticos. A Karlsplatz, o Palácio Schönbrunn, antes da zona da meta das duas distâncias. A ‘meia’ seria a primeira a acabar e aqueles quilómetros que antecederam a chegada foram emocionantes. Ruas repletas de gente, uma multidão a apoiar. Era muito fácil deixarmo-nos levar em ritmos demasiado rápidos quando ainda tínhamos tanto pela frente. Foi o meu caso, mas rapidamente voltei ao modo piloto automático que trazia ligado. Quando o pelotão da ‘meia’ vira para a sua meta e nós seguimos, dá-se aquele momento sempre bonito de incentivo da nossa parte e quase de reverência dos outros para quem corria a maratona.

Dali em diante… faltava outro tanto. Literalmente. Até perto dos 30 a prova teve pouca história, antes voltarmos ao ponto de partida, com nova incursão pelo Prater. Esta bem mais longa. De uma ponta à outra. Aos 30, no ponto de separação das águas, onde os que estão bem ganham força e os outros acabam por quebrar, passámos mesmo em frente ao estádio onde Madjer fez história. Por momentos a minha mente recordou como o argelino fez aquele momento de magia. Quase deu vontade de ir buscar uma bola e fazer algo similar. É, estava fresquinho para até pensar nisso…

Mais uns passos dados, mas sem toques de calcanhar à mistura, faltavam 10 quilómetros. O relógio aproximava-se das 12 horas e o sol já apertava, tal como o vento, que nesta fase final decidiu complicar a nossa tarefa. Aproveitei o facto de ser baixinho para me tentar proteger-me junto de outros corredores, mas parece que por aqui o conceito de entreajuda não é muito conhecido. Tentei três vezes, com corredores diferentes, e todos fizeram cara feia. "Tudo bem. Vou à minha vida". E fui. Até aos 38 ter encontrado uma corredora portuguesa com quem tinha combinado fazer a prova. Não nos vimos antes, mas acabámos por nos encontrar na hora certa. Estávamos quase na meta e naquele momento a minha maratona ganhou um novo sentido. Ia ajudá-la a chegar ao final e protegê-la ao máximo do vento. Missão recebida, missão cumprida. E foi assim que fizemos os últimos 4000 metros. As ruas iam enchendo-se de gente e emoção ia crescendo. Porque, mesmo sendo a quinto do ano, maratona é sempre maratona. E a sensação de superação é sempre a mesma. Língua de fora para as fotos da meta, punho cerrado e bandeira portuguesa bem visível. Estava concluída mais uma!

Portugueses sempre presentes e um no top-20

Podemos ser um país pequenino no mapa, mas é incrível o facto de haver sempre um português onde quer que vamos. Tinha sido assim nas quatro maratonas anteriores deste ano e Viena não foi exceção. E o número total até me surpreendeu, pois não estava à espera que fossem tantos! Este ano foram 80 os que correram – um deles, Roberto Ladeiras, acabou mesmo no top-20 final da maratona –, mas havia muitos mais a aplaudir. Diria mais do dobro. As bandeiras portuguesas não enganavam e sempre que passava por uma soltava um "vamos, Portugal!". Era uma verdadeira injeção de energia ‘autoinfligida’. E que incrível efeito aquilo tinha! De cada vez que via algo identificativo do nosso país ganhava nova força, para ficar mais e mais perto da meta.

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