Sara Moreira: «Os atletas deveriam estar mais protegidos»

29NOV 15h12

Para lá de ter falado das suas ambições para a Maratona de Valência da próxima semana, Sara Moreira analisou ainda a situação do atletismo português atual, especialmente devido à falta de provas para os atletas de elite. Aí, a Record, a atleta do Sporting deixa duras críticas a quem manda e assume que a Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) tem de exigir que algo mude, sob pena de o nosso atletismo (e os seus atletas) ficarem sem ter como sobreviver.

"Acho que deveríamos, o atletismo, os organizadores de provas e a própria federação, estar mais protegidos, no sentido de podermos fazer o nosso trabalho. Vejo na televisão a falar-se da cultura e não vejo ninguém a falar de eventos desportivos à exceção do público no futebol. Não temos ninguém que nos defenda e que diga que é preciso fazermos alguma coisa pelos atletas. Tanto aqui como noutras modalidades. Tem de haver quem entenda e perceba que, mesmo não fazendo provas de massas - porque não dá -, este caminho que estamos a ter não nos vai levar a lado nenhum", considera a atleta leonina, elencando depois as razões que suportam a sua afirmação.

"Primeiro porque vai levar a muito abandono. Ainda que não haja muitos profissionais de atletismo em Portugal, há alguns que são quase profissionais, pois iam buscar alguns prémios que permitiam fazer uma vida quase exclusiva do atletismo. Neste momento, não havendo provas, como é que os atletas sobrevivem? Quem não tiver um clube, como é que sobrevive? Digo isto pelos atletas, mas também falo em relação a organizadores de provas, que estão parados há imensos meses. Como é que se sobrevive?", questiona.

Mas, então, é possível organizar-se provas de atletismo nesta fase? Sara Moreira diz que sim e explica a sua ideia. "Não da forma como fomos habituados, mas sim, é possível. Vamos fazer uma seleção, organizar uma corrida de 10 quilómetros para a elite nacional e para mais 200 amadores. No mês seguinte fazemos outra, com outros 200... É possível fazer-se, em Espanha faz-se e não estão melhor do que nós. O problema é que não temos uma entidade capaz de olhar para o que se está a passar no desporto, nomeadamente nas outras modalidades que não o futebol".

Apesar de não criticar abertamente a FPA, pois não sabe "o que tem sido feito", Sara Moreira deixa claro que, no seu entender, é necessária uma posição forte. "Acho que a Federação tem de pressionar, tem de exigir mesmo, porque vive dos atletas e dos seus resultados. Tem de ter interesse em que haja competição. Acho que é bom para todos, até para os clubes, que estão a investir. Estão a pagar e nós temos de competir para mostrar a camisola, mostrar o que estamos a fazer. Em termos de país não há ninguém a olhar para o desporto como deveria olhar e este não é o caminho", finalizou.

Um calendário que precisa de mudanças

E se em 2020 o calendário de provas foi bastante reduzido por conta da pandemia, nos anos anteriores o cenário foi bem diferente, com competição praticamente sem parar. E isso, explica, é algo que deve ser mudado, especialmente depois do que se tem visto nas recentes provas internacionais, com vários recordes a caírem, como por exemplo nos Mundias da Meia Maratona, em Gdynia, na Polónia. Registos que na opinião de Sara Moreira se justificam essencialmente pela menor carga competitiva.

"Os fundistas, por exemplo, correm praticamente o ano todo. Temos um calendário competitivo muito grande, com corta-mato, depois Taças da Europa. Isto é bom, mas também provoca desgaste, e se calhar o facto de não haver muitas provas e de haver apenas as certas permitiu-lhes ter resultado na hora certa. Aquilo que nós temos vindo a defender muito cá é um calendário similar ao de há 20 anos. Menos sobrecarregado, em que basicamente fazíamos o Campeonato em agosto e setembro e só voltávamos nas São Silvestres. E agora é completamente diferente", explica, apontando a uma verdadeira maratona de provas entre o verão e abril.

"Basicamente não conseguimos fazer um ciclo de treino de seis semanas para conseguirmos atingir um pico de forma e competir da forma certa. Provavelmente foi isso que sucedeu este ano com tantos recordes. Conseguiram fazer uma preparação especifíca para uma prova e as coisas como deve ser: treino, competição... Cá em Portugal competimos, competimos, competimos e onde é que vamos treinar?", questiona a atleta leonina.

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