Meia Maratona de Ústí nad Labem: Regresso à ação na Rep. Checa

27SET 11h45

Na semana passada trouxemos a estas páginas o relato de um atleta português de trail que foi a Espanha conhecer a nova realidade das provas da sua especialidade no país vizinho e esta semana é hora de vos trazermos uma experiência na primeira pessoa. Vivida por um jornalista de Record, que no último fim de semana foi à Rep. Checa tentar perceber como o país e a RunCzech, uma das primeiras organizações a avançar com novos modelos de provas no Mundo, se adaptaram à ainda difícil nova realidade de realizar provas de corrida, em massas, em tempos de pandemia.

E a verdade é que esta análise terá efetivamente que começar pelo adjetivo que colocámos acima. Difícil. Difícil porque, no final de contas, para a prova ser de sucesso a faca e o queijo estão nas mãos dos corredores. Não importa quais as medidas que sejam implementadas, por melhores e mais rígidas que sejam, que o sucesso de toda a operação, de todo o esforço colocado em prática, se resume à recetividade (ou não) dos corredores que estiverem presentes. E a verdade é que esse foi desde logo um ponto que tínhamos bem presente na hora de abordar esta prova.

As regras a seguir eram bem simples, mas nem isso bastou (e provavelmente não bastará) para que os atletas envolvidos as respeitassem. Entre elas estavam o uso de máscara nos períodos prévios à prova (nas zonas comuns e nos corredores de partida) e também um pedido expresso que para que houvesse distanciamento físico nesse momento antes do arranque, algo que a organização fez por permitir com um alargamento da zona de partida. O problema foi que, como dissemos acima, o sucesso de toda a operação montada estava nas mãos dos corredores. E a verdade é que foram vários aqueles que não souberam sequer aguentar pelo tiro de partida pela retirada da máscara ou por simplesmente estar um passo ao lado do corredor mais próximo. E esse pode mesmo ser o principal problema para que, de uma vez por todas, o atletismo de rua, com milhares de corredores, possa voltar à ação.

Para recordar

Independentemente da recetividade de alguns, a verdade é que esta Meia Maratona de Ústí nad Labem, uma cidade 'desconhecida' na zona norte do país, mostrou-nos que é mesmo possível voltarmos a viver o atletismo popular. Não será como dantes (provavelmente ainda demorará até lá voltarmos), mas aquilo que vivemos no último sábado foi suficiente para perceber que há uma luz ao fundo do túnel. Tudo isto numa prova que reuniu mais de dois mil atletas e que confirmou a excelência da RunCzech enquanto organizadora de provas populares. Fazendo um balanço, daríamos nota 9 a toda a experiência que ali vivemos, tanto pelo incrível ambiente da prova (ninguém diria que esta é apenas e só uma cidade industrial) e pela rapidez do traçado, mas especialmente pelas medidas anti-pandemia, com as tais regras impostas de uso de máscara e distanciamento físico, mas também pela existência abundante de postos de desinfeção, antes, durante e depois da corrida, e ainda aos abastecimentos­, sem qualquer contacto entre corredores e voluntários.

Por isso, olhando ao que foi feito, acreditamos que mais cedo ou mais tarde as provas populares poderão voltar ao nosso país. Mas lembrem-se, para tal tudo depende de nós e da nossa aceitação perante as regras impostas. Se todos as aceitarmos… todos ficarão a ganhar.

Um exemplo para o Mundo

Sem realizar provas de massas há praticamente meio ano (pelo meio foi organizando eventos distintos do habitual com um pelotão reduzido), a RunCzech espera que este passo sirva de exemplo para outras organizações e também outros países. Presidente da organização checa e também líder da comissão de provas de estrada da World Athletics, Carlo Capalbo assumiu isso mesmo a Record e revelou que foi elaborado um manual que será partilhado com todos os interessados, no qual estarão elencadas as medidas necessárias para organizar provas de massas em tempos de pandemia. Entre essas medidas estão todas as que foram tomadas, isto depois de vários meses de contacto direto com as autoridades.

"Não foi fácil, implicou um grande risco e não foi uma operação financeira muito boa. O meu consultor financeiro até disse para não o fazer, mas tinha o dever cívico de avançar", assume Capalbo, que em comparação com o ano passado fala num aumento de 30% na carga de trabalho apenas por causa das questões de "segurança e higiene". "Tivemos de ser muito cautelosos, porque em todas as sociedades há pessoas pro e contra. Pois podem acusar-te de teres provocado um surto. Estávamos alertados para essa possibilidade e, para nos prepararmos, cumprimos as recomendações e ainda fomos para lá delas", explicou.

De resto, conforme dissemos acima, Capalbo espera que este passo sirva para abrir portas noutros países, nomeadamente em Portugal, um país com o qual a RunCzech tem via direta através das SuperHalfs. "Espero que isto dê confiança, pois isso é importante. Muitas pessoas estão receosas, pois somos seres humanos e o medo bloqueia-te. Temos de nos movermos! A linha de meta está muito longe. Um ano, meio ano... O que queres fazer até lá? Ficar em casa a ver televisão? Não gosto disso, nem tenho televisão! Preciso de fazer coisas de forma continuada, porque se não é como se estivesse num bar sempre a beber... No final de contas tens de fazer alguma coisa", assumiu o líder da RunCzech.

A receita foi lançada nesta prova e, se tudo correr bem, será para repetir noutras provas. E caso a Maratona de Praga fique ‘ameaçada’, Carlo Capalbo deixou já no ar a ideia de que poderá surgir um modelo totalmente inovador para a realizar. Como aquele que há três semanas permitiu a Peres Jepchirchir correu a meia maratona feminina mais rápida da história.

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