João Neto: O homem que tem sete vidas

27JAN 14h41

Uma boa dose de maluquice, uma pitada de coragem e uma mente sã... esta pode muito bem ser a receita ideal para se enfrentar o impossível. João Neto, de 52 anos, tem na sua posse todos estes ingredientes e deu-nos legitimidade para conotarmos assim o desafio que tem pela frente. Empresário das telecomunicações há 34 anos, o lisboeta apaixonou-se pela corrida há cinco e na próxima quinta-feira inicia a aventura de uma vida: vai participar na ‘World Marathon Challenge’, que é como quem diz, vai correr uma maratona por dia em todos os continentes, isto tudo em apenas uma semana... à semelhança dos gatos, também João Neto parece ter sete vidas!

Com o sol a brilhar lá no alto, a secar a humidade que ainda resistia nas plantas, a equipa de reportagem de Record encontrou-se com João Neto no complexo desportivo do Estádio Universitário, um dos locais escolhidos para preparar o físico. Apesar de contar no currículo com 21 maratonas - incluindo a do Polo Norte -, é importante perceber o que vai na cabeça do maratonista para se submeter a uma aventura destas. E, já agora, em que estado vai ficar o corpo com tamanha exigência.

"Primeiro chamam-me louco, mas nem quero entrar por aí. Isto acaba por ser um desafio mental para mim. É também um sonho... e faço tudo para concretizá-lo. Sei que quando acabar este ciclo estarei feito num ‘oito’. A última maratona é a 6 de fevereiro, mas eu chegarei dia 8 a Portugal. Vou com 71 kg... e devo chegar com 59 kg. E estou a comer bem para engordar. Mas também derreto muito material desportivo. Só para preparar esta prova já foram cinco pares de ténis", contou, ele que antes da conversa com Record já tinha corrido 2,5 km pelas ruas de Lisboa.

Preparação... num talho

E quanto às peculiaridades do investimento físico? "Treino aqui [Estádio Universitário], sou seguido no CAR do Jamor, faço natação e ainda treino nas câmaras frigoríficas do Intermarché da Ericeira, que é o único em Portugal que consegue proporcionar temperaturas tão baixas. Isto porque a primeira maratona é na Antártida. É importante treinar em condições que se assemelhem à realidade... aqui só não há vento. Fiz também seis meias-maratonas seguidas no fim do ano", explicou, dando conta de um percalço que tem afetado os últimos dias em Portugal. "Tenho estado com uma inflamação numa hérnia e não tenho treinado com normalidade. Perante isto, o meu principal objetivo é apenas terminar a prova", afirmou, denotando muita confiança no olhar.

Um avião que encolhe o globo

Ao longo dos sete dias da competição, João Neto vai deixar as pisadas na Antártida, Cidade do Cabo (África do Sul), Perth (Austrália), Dubai (EAU), Madrid (Espanha), Santiago (Chile) e Miami (EUA), respetivamente por esta ordem. Para além dos 295 quilómetros a percorrer em terra, o português também vai ‘queimar’ algumas milhas. E uma vez que o descanso só vai acontecer no ar, é normal que estejamos a falar de um avião especial... E como será que a organização tenciona ‘encolher’ o globo?

"Eu vou de Portugal para o Dubai e do Dubai para a Cidade do Cabo. Na África do Sul apanho um avião específico - um daqueles aviões russos - para a Antártida... e regresso para a Cidade do Cabo. A partir daí apanhamos um avião exclusivo, um avião que é só para a competição, e que vai fazer as restantes maratonas até Miami. É um avião que permite que os 40 maratonistas descansem entre cada maratona. A título de curiosidade, é o mesmo aparelho que já transportou a banda irlandesa de rock U2", explica João Neto, aparentando alguma ansiedade à medida que os ponteiros do relógio avançam.

Olhando para a rota e para os locais onde os maratonistas vão correr, talvez seja fácil adivinhar que coloquem a Antártida no topo da lista dos percursos mais difíceis. Mas será mesmo este o ‘tubarão’ das maratonas? É melhor perguntar ao especialista. "A prova mais difícil vai mesmo ser em Madrid (Espanha). Nos restantes locais, a organização preocupou-se em criar um percurso linear e mais confortável para os atletas... mas em Madrid não foi bem assim. O percurso é irregular... vai ser um valente obstáculo", aponta João Neto.

Após a dureza... vem a vertigem

Depois de um esforço (literalmente) planetário, que o vai ‘obrigar’ a espalhar gotas de suor em todos os continentes, João Neto renova ambições e vai ‘bater de frente’... com as vertigens. O próximo objetivo do maratonista de 52 anos é participar na Maratona dos Himalaias. A cordilheira asiática detém a montanha mais alta do mundo, o monte Evereste, e é mesmo aí que o português vai tentar completar 42 quilómetros no dia 29 de maio. O empresário não conhece os limites... e basta olhar para o seu portfólio de desafios.

Como cabeça de cartaz, João Neto pode gabar-se de ter completado a ‘World Marathon Majors’, que consiste em fazer as maratonas de Chicago, Londres, Boston, Nova Iorque, Berlim e Tóquio em apenas dois anos. Se terminar a ‘World Marathon Challenge’ junta-se ao prestigiante clube do ‘Grand Slam’. É obra!...

Uma mala cheia de dinheiro

Sem muitos rodeios, é preciso uma mala cheia de dinheiro para participar neste enorme desafio que existe desde 2015: a assinatura na folha de inscrição do ‘World Marathon Challenge’ custou 36 mil euros aos 40 participantes. João Neto, o primeiro português a participar nesta odisseia (e talvez o único), não fugiu à regra e teve de abrir os cordões à bolsa - a meias com alguns patrocinadores - para testar os limites. É a prova de que a ambição não tem preço!

Contudo, João Neto, pai de dois filhos - a Mariana e o André -, desvenda qual o verdadeiro custo desta experiência. "Acabo por dedicar mais tempo à preparação em detrimento da minha profissão e da minha vida, o que acaba por me prejudicar", admite o experiente atleta.

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